13/03/2017

Em homenagem no Senado, Moka destaca poesia e vida simples de Manoel de Barros

Manoel de Barros e sua mulher, Stella, com quem teve três filhos Manoel de Barros e sua mulher, Stella, com quem teve três filhos Foto: Ana Branco / Agencia O Globo

Um dos maiores poetas brasileiros, Manoel de Barros, que completaria 100 anos em dezembro de 2016, foi homenageado nesta segunda-feira (13) no Plenário do Senado. O senador Waldemir Moka (PMDB-MS) destacou a simplicidade da poesia autor.

De iniciativa do senador Pedro Chaves (PSC-MS), que o conheceu pessoalmente, a sessão especial se iniciou às 11h e terminou quase às 14h, após discursos, vídeo e uma canção de homenagem.

Moka disse que teve a oportunidade de conversar com um amigo de Manoel de Barros, o jornalista Cândido Alberto Fonseca, que lhe contou que o poeta era um homem simples e discreto.

“Ele teve o privilégio de entrevistar Manoel de Barros algumas vezes. Segundo Cândido, Manoel de Barros era um homem simples, arredio a entrevista e fugia das câmeras como o diabo foge da cruz. A conversa andava bem até o holofote da câmera ser ligado”, relatou.

Chaves contou a história do poeta, que nasceu em Cuiabá (MT), mas mudou-se ainda menino para Corumbá (MS). Em seguida, foi morar numa fazenda no Pantanal, ambiente de onde colheu inspiração para sua poesia. Chaves, que criou a Fundação Manoel de Barros em 1998 em Campo Grande (MS), para apoiar projetos culturais, sociais e ambientais, julgou-se suspeito para falar do poeta.

Pedro Chaves falou ainda que Manoel de Barros, ao morrer em 13 de novembro de 2014, deixou um manancial de palavras comparável apenas à biodiversidade do Pantanal.

O senador Cristovam Buarque (PPS-DF) narrou o encontro que teve com Manoel de Barros, apresentado a ele pelo senador Pedro Chaves. Cristovam tinha ido fazer uma palestra na universidade e disse a Pedro Chaves que gostaria de visitar Manoel de Barros. Depois de passar por engano em outra casa, Cristovam Buarque contou que Manoel de Barros o recebeu “com um sorriso enorme nos lábios”.

O senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) lamentou que, nos tempos atuais, com as tecnologias e redes sociais, as pessoas não tenham mais tempo para apreciar poesia.

“Em franqueza, isso é lamentável. Isso é uma pena. Não é nostalgia, pode até parecer pelos cabelos brancos que ostento. Mas, mesmo assim, ainda em dias recentes, e foi isso que me trouxe a tribuna, quando surge um expoente do calibre do notável Manoel de Barros, isso desaparece, isso muda. Na verdade, a impressão que se tem é que, a poesia, de tempos em tempos, ressurge das cinzas e desponta novamente como uma arte nobre e renovadora do espírito criativo”, afirmou.

O senador Wellington Fagundes (PR-MT) também participou da sessão e disse ser um mérito muito grande do Senado prestar uma homenagem ao poeta Manoel de Barros. Ele lembrou o que o poeta Carlos Drummond de Andrade falou a respeito de Manoel.

“Falaram a Carlos Drummond de Andrade que ele seria o maior poeta vivo do Brasil. Mas Drummond discordou e disse: “não, não sou o maior poeta, porque existe Manoel de Barros”, lembrou o senador.

Compuseram a mesa da sessão, além dos senadores Pedro Chaves, Waldemir Moka e Thieres Pinto (PTB-RR), o deputado federal Izalci Lucas (PSDB-DF); a presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Maria Inês Fini; o vice-presidente do Conselho Curador da Fundação Manoel de Barros, Marcos Henrique Marques e a representante do ministro da Educação, Regina de Assis.

Biografia

Manoel de Barros nasceu em 1916, em Cuiabá, e morreu aos 97 anos, em 2014, em Campo Grande.  Ele é considerado um dos principais poetas brasileiros contemporâneos e escrevia versos nos quais elementos regionais se conjugavam a considerações existenciais, em uma espécie de “surrealismo pantaneiro”. Publicou seu primeiro livro de poesias, Poemas Concebidos Sem Pecados, em 1937. Em seguida, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou bacharel em Direito, em 1941. Viajou para a Bolívia e  Peru, conheceu Nova York e era familiarizado com a poesia modernista francesa.

A partir de 1960 passou a se dedicar a sua fazenda no Pantanal, onde criava gado. Sua consagração como poeta se deu ao longo das décadas de 1980 e 1990. Recebeu o Prêmio da Crítica/Literatura, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Foi contemplado também com o Prêmio Jabuti de Poesia, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, pela obra O Guardador de Águas.

Com Agência Senado


Íntegra do pronunciamento de Moka

Discurso sessão em homenagem a Manoel de Barros

Senhor presidente desta sessão solene, senhoras senadoras, senhores senadores.

Antes de qualquer coisa, agradeço o espaço que o Senado abre para que possamos todos homenagear um dos maiores poetas brasileiros deste e do século passado.

Manoel de Barros nasceu como Manoel Wenceslau Leite de Barros, em Cuiabá, no Mato Grosso, em 19 de dezembro de 1916 e morreu aos 97 anos em 13 de novembro de 2014.

Pode-se dizer que Manoel de Barros foi o poeta que retratou com maior fidelidade a vida no Pantanal, tanto em relação ao homem pantaneiro quanto à fauna e à flora da região.

Importante deixar claro, no entanto, que Manoel não era poeta pantaneiro. Ele era do mundo, embora suas obras tenham demorado a chegar, digamos, às pessoas.

Manoel nasceu e cresceu em pleno Pantanal. Ainda criança sua família mudou-se para Corumbá, a nossa Cidade Branca, hoje município localizado em Mato Grosso do Sul.

Apelidada de Neguinho pela família, a criança passou sua infância sentindo a textura da terra nos pés, brincando e correndo entre personagens que definiriam sua obra, os currais e os objetos que chamavam a atenção do futuro escritor.

Sua formação escolar começou em Campo Grande, hoje a capital do meu Mato Grosso do Sul, seguindo logo depois para o Rio de Janeiro. Essa situação, em princípio, desagradou ao menino, acostumado acordar com o canto dos pássaros de que tanto gostava.

Sem a natureza ao seu redor e para diminuir a saudade da família, o menino mergulhou nos livros.

Foi aí que ele teve o primeiro contato com os livros do Padre Antônio Vieira, ao mesmo tempo em que descobriu que não precisava assumir nenhuma responsabilidade com a prática da verdade na literatura, e sim com a verossimilhança.

Enquanto tomava conhecimento das disciplinas do ensino primário e ginasial, como Língua Portuguesa e Matemática, Manoel não dispensava a leitura de autores famosos.

Com memória aguçada, atento aos detalhes e às nuances da natureza, escreveu seu primeiro poema aos 19 anos, a partir do qual não parou mais. Embora calado, de voz mansa e muito retraído, o escritor teve sua fase de militância política.

Por volta de 1935, engajou-se no Partido Comunista. No entanto, o jovem Manoel de Barros abandonou o Partido por se sentir profundamente desapontado com Luís Carlos Prestes.

Manoel entendia que Prestes não deveria dar as mãos a Getúlio Vargas, até então algoz dos membros do Partido Comunista. Para não ser preso, o escritor decide voltar para casa, ou seja, a fazenda da família no Pantanal. A literatura, evidentemente, agradeceu muito.

Manoel passou um período na Bolívia e no Peru, depois partiu para Nova York, onde residiu por um ano, estudando cinema e pintura, povoando assim sua poesia com as imagens mais ricas e distintas.

Ao retornar para o Brasil, o poeta conhece Stella, sua futura esposa. Com ela, teve três filhos: Pedro, João e Marta, e sete netos.

Após muitas aventuras, ele volta ao Rio de Janeiro para fazer Direito, geralmente o curso frequentado pelos amantes da literatura naquela época. Em 1949, aos 33 anos, formou-se em Direito, retornando para Corumbá, onde herda a fazenda que era do pai. 

Tive a oportunidade de conversar com amigos do poeta, como o jornalista, professor e documentarista Cândido Alberto Fonseca, que, como ele mesmo diz, teve o privilégio de entrevistar Manoel algumas vezes.

Segundo Cândido, Manoel de Barros era um homem simples, arredio à entrevista e fugia das câmeras como o diabo da cruz. A conversa andava bem, até o holofote da câmera ser ligado.

Uma das lutas de Manoel de Barros era pelos direitos autorais, dos quais não abria mão. Como era pouco conhecido, o que era seu de fato e de direito não chegava até ele, disse-me o documentarista.

Cândido contou que o poeta mato-grossense e sul-mato-grossense só começou a receber parte dos seus direitos quando passou a ganhar prêmios de entidades conhecidas do mundo literário.

Pouco conhecido pelo público, Manoel, no entanto, tinha muitos admiradores entre os próprios escritores. O primeiro a elogiar o trabalho de Manoel de Barros foi Antonio Houaiss, um dos maiores críticos literários do país, morto em 1999.

A primeira obra nasceu no Rio de Janeiro e lá despertou para o público, há mais de sessenta anos, e foi batizada de Poemas Concebidos sem Pecado, lançada em pequena tiragem, com a ajuda de um grupo de amigos. Depois vieram muitos outros livros.

O poeta ganhou prêmios importantes, como o Prêmio Orlando Dantas, em 1960, doado pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Compêndio para Uso dos Pássaros. Sua obra posterior, Gramática Expositiva do Chão, foi contemplada com o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal, enquanto Sobre Nada ganhou outra honraria, desta vez de contexto nacional.

Apesar de ser pouco popular, comparado a poetas pós-modernistas, como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gular, por exemplo, as obras de Manoel de Barros invadiram livrarias do mundo todo.

Manoel de Barros, a quem Carlos Drummond de Andrade qualificou de o “poeta maior” do Brasil, morreu em 13 de novembro de 2014, em Campo Grande, onde residia há décadas, de onde saía somente para sua fazenda no Pantanal.

Concluo essa simples homenagem com citações poéticas de Manoel de Barros, o que demonstrava sua paixão pelas coisas mais simples da vida.

“Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo."

Muito obrigado.